"A
característica dos tempos atuais é a ávida credulidade"
Benjamin
Disraeli, político e escritor britânico, 1864.
No Tibete, a população
tem um método infalível para interromper uma eclipse da lua.
Sobem todos nos tetos de suas casas e começam a bater palmas e gritar
em uníssono, para enxotar os maus espíritos que estão
roubando a luz dos astros. Funciona perfeitamente toda as vezes ! Depois
de alguns minutos de gritaria, a sombra desaparece e a lua retorna em toda
sua glória. Os tibetanos, naturalmente, acreditam que sua intervenção
coletiva é o que "salvou" a lua da extinção permanente.
Parece ridículo
para nós, ocidentais esclarecidos e vivendo em plena era da ciência
e tecnologia, que uma superstição tola como essa tenha lugar
em nossa sociedade. No entanto, ela ocorre milhares de vezes por dia em
nossas vidas ! Basta ver a declaração recente de um cardeal
brasileiro famoso de que foram as rezas de sua congregação
e as danças rituais pelos pajés indígenas que apagaram
os incêndios de Roraima. A mesma coisa acontece com os milagres e
premonições. O fato de ter chovido pode ter sido uma mera
coincidência, mas as pessoas acreditam acham que houve uma relação
causal entre ambas, e não temporal, como é o caso. Não
difere em nada, portanto, dos tibetanos.
Esse tipo de
falácia é muito comum e recebe o nome em latim, de "post
hoc ergo propter hoc", o que significa "após isso, então
por causa disso". Ela é baseada na noção errônea
que se uma coisa acontece após outra, o primeiro evento foi a causa
do segundo. Muitos eventos acontecem de forma seqüencial, sem que
eles sejam correlacionados causalmente, por isso nosso cérebro é
enganado. Ele não foi "feito" pela natureza para detectar correlações
causais, mas detecta facilmente correlações temporais. Portanto,
podemos dizer que o efeito "post hoc" é a base da maioria das superstições
e da credulidade irracional. É um problema sério, que interfere
de forma muito extensa até mesmo em conclusões supostamente
científicas.
Toda a medicina
alternativa e uma parte razoável da medicina convencional devem
muito ao fenômeno "post hoc". Por exemplo, uma pessoa fica resfriada,
toma umas gotinhas homeopáticas, e fica boa de novo em dois ou três
dias. A pessoa (e o médico !) atribuem a cura ao fato de se ter
tomado o remédio. No entanto, se não tivesse tomado nada,
o resfriado passaria espontâneamente dois ou três dias depois...
O pior é
que um grande número de trabalhos supostamente "científicos",
publicados em revistas médicas, não têm nenhuma validade
em suas afirmações, justamente por não usarem o método
consagrado para afastar os perigos do "post hoc", que seria comparar os
resultados obtidos com um grupo que toma o remédio, com outro que
nada toma. Se não houver alguma diferença significativa,
a relação causa-efeito não existe, e o que se constata
é uma mera correlação temporal, uma coincidência,
enfim.
Infelizmente,
a própria estrutura da imprensa e da TV, e a maneira com que as
mídias de massa funcionam, favorece ao extremo a credulidade baseada
no princípio do "post hoc"e outras patologias do raciocínio
(os filósofos reconhecem muitas, como "non sequitur", hipérbole,
"argumentum ad ignorantiam", e outros, que um dia explicarei para vocês,
se houver interesse). Por exemplo, recentemente o Correio Popular noticiou
que oráculos e astrólogos estão afirmando que as várias
mortes de pessoas importantes neste ano (Sérgio Motta, Luiz Eduardo
Magalhães, Nelson Rodrigues, Octavio Paz e outros) não seriam
coincidência, mas sim um "alerta", um indicativo das agruras que
nos aguardam neste fim do milênio. Pois bem, quem fez a reportagem
não se preocupou em ouvir o "outro lado", que seria, no caso, qualquer
cientista especializado em estatística. Seria muito fácil
comprovar que não existe nenhuma distribuição preferencial
de mortes de gente importante no começo, meio ou final do século.
No entanto, não dá manchete escrever "Cientistas dizem que
não está morrendo mais gente importante do que o normal"
! É o tipo da notícia em que uma afirmação
no sentido da negatividade oferece pouca atratividade para os editores
que montam o jornal ou o programa de TV.
Com isso, a imprensa
ajuda a perpetuar a credulidade, essa sim, típica deste final de
século.
A ciência
já foi grande aliada da religião, quando o conhecimento era
criado e moldado de forma a satisfazer os interesses dogmáticos
da fé. Não podia haver experimentação e observação
livre, independente e objetiva, pois isso ameaçava o interesse de
se preservar "os desígnios de Deus" e a infalibilidade de seus auto-denominados
representantes na Terra. Todo mundo conhece os casos de Giordano Bruno,
Galileu e outros mártires do conhecimento científico liberado
do dogma. Aristóteles e Ptolomeu eram os paradigmas para o retrato
eclesiástico do Universo. Os sacerdotes do Egito, Mesopotâmia,
maias, astecas e incas, etc., usavam o seu avançado conhecimento
sobre os planetas e as eclipses, que conseguiam prever com muitos anos
de antecedência, para comprovar para o povão que tinham um
canal direto com os deuses e eram capaz de interpretar corretamente os
seus desígnios.
Uma anedota sintomática
da grande batalha entre a crença e o conhecimento científico
é aquela em que Aristóteles escreveu que as mulheres tinham
menos dentes na boca do que os homens. Segundo ele, tinham que ter, pois
as mulheres eram consideradas inferiores. O debate se prolongou por toda
a Idade Média, e nenhum monge ou cientista ousava discordar do "grande"
Aristóteles, a fonte de todo o conhecimento da Antiguidade. Assim,
a autoridade se sobrepunha à observação objetiva.
"No entanto’, como disse jocosamente Isaac Asimov: "a pendenga teria sido
resolvida se o Sr. Aristóteles tivesse pedido para a Sra. Aristóteles
abrir a boca...".
Publicado em:
Jornal Correio Popular, Campinas, 24/4/98.